Desconstruindo o Normal
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TRABALHO, o primeiro dos 9 pontos de construção do Novo Normal

Dando continuidade à discussão no artigo anterior, Desconstruindo o Normal, e antes de qualquer outra coisa, deixo claro que não sou ingênua a ponto de acreditar que tudo vai mudar imediatamente e que as pessoas vão virar a chave e construir o novo normal já a partir da flexibilização do isolamento.

Entendo que muito já aprendemos e poderemos manter desde já, mas a maior parte das coisas vai precisar de um, cinco, dez, quinze anos para se alterar processo e especialmente conceitos, valores e convenções. Porém, sem dúvida, a crise atual desencadeou um processo de mudança sem volta. E tudo começa pelo mundo do trabalho e do estudo.

Porém, sem dúvida, a crise atual desencadeou um processo de mudança sem volta. E tudo começa pelo mundo do trabalho e do estudo.

Locais de trabalho e escolas foram os dois primeiros grandes centros de aglomeração de pessoas imediatamente fechados quando se reconheceu a gravidade dos efeitos do novo corona vírus e a absoluta incapacidade dos sistemas de saúde absorverem a enorme quantidade de doentes graves.

Afinal, as principais armas contra o avanço rápido da COVID-19 foram e ainda são o isolamento social, o distanciamento social e a higienização, além das máscaras e luvas para quem precisa se deslocar e trabalhar fora de casa.

A partir daí, podemos ver o começo da desconstrução, dos impactos em outros pontos importantes e do quanto tudo pode ser diferente para construirmos um Novo e Melhor Normal para nossas vidas, para a economia, para o mundo.

Vou procurar passar por todos os pontos que me ocorrem, embora eu saiba de antemão que eles terão reflexos em todas as áreas da vida humana e que são incontáveis a partir de onde estamos hoje.

Trabalho

Várias ações foram tomadas em função da necessidade imediata de isolamento social quando o novo corona vírus mostrou a rapidez impressionante de contaminação entre pessoas. O #FicaEmCasa se tornou palavra de ordem e de uma hora para outra as atividades administrativas em geral precisaram ser transferidas para as residências dos trabalhadores. No começo, aconteceu de maneira atabalhoada, e foi se organizando e estruturando ao longo das primeiras semanas.

O #FicaEmCasa se tornou palavra de ordem e de uma hora para outra as atividades administrativas em geral precisaram ser transferidas para as residências dos trabalhadores.

As atividades produtivas precisaram alterar horários, adaptar processos, e as empresas, em geral, já se deram conta que muitas coisas não voltarão ao que eram antes.

Em matéria do dia 25 de março na Exame, isso foi abordado mostrando que empresários e empreendedores experientes estão revendo praticamente tudo o que sabem e conhecem, e entendem que será necessário desenvolver novos modelos de negócio e de gestão – que, aliás, já estão acontecendo.

O isolamento social vai provocar a criação de novos hábitos e comportamentos no universo corporativo, com revisão das reais necessidades de se manter processos e estruturas.[1]

Vamos rever, então, algumas questões.

Home Office

Embora atualmente a facilidade de acesso seja muito maior e a tecnologia muito mais desenvolvida, há mais de 20 anos existem condições para boa parte dos trabalhos administrativos ou não operacionais serem feitos à distância. Os maiores obstáculos sempre foram comportamentais e culturais: controle e status eram os principais pontos quase sempre incontornáveis. Afinal, gestores comumente se faziam perguntas do tipo

  • Como saber se o empregado está trabalhando?
  • Como saber se começou a trabalhar no horário estipulado?
  • Como saber se não está no cinema ou na praia?
  • Como saber se não vou ter que pagar hora-extra porque deixou o computador logado no sistema?

Entre outras que, mesmo quando lhes eram oferecidas soluções tecnológicas já existentes, não traziam “tranquilidade” para certas chefias.

Agora, sem alternativas presenciais durante a pandemia, tendo que aderir às pressas ao home office, ficou claro que o trabalho à distância funciona. E funciona porque se precisa confiar nas pessoas e entender que o que realmente importa é o resultado. Se o trabalho foi feito, mesmo o profissional estando trabalhando em condições improvisadas de home office, é porque dá certo.

Imagine, então, se for em condições melhores?

Agora, sem alternativas presenciais durante a pandemia, tendo que aderir às pressas ao home office, ficou claro que o trabalho à distância funciona. (…) Imagine, então, se for em condições melhores?

Para as empresas de maior porte, a economia em aluguéis e custos fixos nos grandes centros econômicos é tão óbvia que nem vou me dar ao trabalho de detalhar aqui. Isso, somado a uma saúde física e mental mais equilibrada dos empregados, menos faltas ao trabalho por doença ou dificuldades de deslocamento, maior qualidade de vida para todos, aumentam as chances de profissionais com melhores entregas de resultados e minimiza custos com rescisões.

Redução de jornada

Existem algumas profissões que há anos têm suas jornadas diferenciadas quanto ao número de horas, para mais ou para menos. Alguns dos casos mais conhecidos são os dos profissionais de telemarketing (seis horas diárias) e os de corpo de enfermagem (mais horas diárias entremeadas de folgas de um ou dois dias).

Agora, durante a pandemia, temos visto várias atividades terem a jornada reduzida (e o salário também) para facilitar as questões de higienização e não aglomeração de pessoas nos estabelecimentos e possibilitar a continuidade dos negócios.

Pense no quanto isso poderia ser útil para mães e pais com filhos em idade escolar, que poderiam trabalhar durante o período que as crianças estão na escola e ficar com elas no turno oposto. Isso pode contribuir no aumento da renda familiar, abre mais tempo para a interação entre pais e filhos, dá oportunidade de participação no aprendizado da criança e de desenvolver o espírito de colaboração de todos da família em casa. Podemos estar construindo a redescoberta e reconstrução do conceito de família.

Podemos estar construindo a redescoberta e reconstrução do conceito de família.

Aposentados e idosos em geral, pessoas com deficiência, estudantes que precisam pagar o próprio curso (não me refiro a aprendizes ou estagiários) também podem ser imensamente beneficiados por jornadas de trabalho reduzidas. Todos que precisam ou querem um trabalho remunerado que não exceda às suas limitações. Pense a respeito.

Horários flexíveis

Uma das coisas mais sem sentido no “normal” que vivíamos é o fato de todas as lojas de rua abrirem às 9 horas e fecharem às 18h, todos os escritórios iniciarem o expediente às 8h (ou 9h) e encerrarem às 17h (ou 18h). E ainda existir a afirmação que estamos em um mundo globalizado ou que vivemos numa metrópole que nunca dorme.

Isso tem um impacto tão óbvio no trânsito e nos transportes públicos que uma das medidas que têm sido adotadas em diferentes lugares para evitar aglomerações é justamente o escalonamento de horários de entrada e saída do trabalho. Nem vou falar dos trens e metrôs superlotados e ônibus com gente pendurada nas portas…

Você já pensou nos elevadores cheios de gente, chegando suadas da rua, todas respirando o mesmo ar dentro daquela caixa de metal enquanto ela vai subindo e descendo, deixando e pegando gente pelos andares?

E já pensou no horário do almoço, que é o mesmo para todos, e que fica aquele povo se espremendo na fila do buffet self service (e conversando e respirando em cima) e, depois, de novo, nos caixas para pagamento?

E aí você não tem ideia de onde pode ter pegado aquela gripe, a conjuntivite, a rubéola, a meningite, não é? Ou, pior, de onde seus filhos pegaram, porque você pode não adoecer, mas pode ser o “transporte” dos fungos, bactérias e vírus para dentro de casa.

Ah, mas todo mundo sai quase junto na hora do almoço!

E aí você não tem ideia de onde pode ter pegado aquela gripe, a conjuntivite, a rubéola, a meningite, não é?

Escalas de trabalho

Vou contar uma novidade pra você: existe uma coisa que parece mágica e se chama “escala”. E a gente pode fazer quase tudo, até o horário do almoço, funcionar super bem com horários alternados. Por exemplo, assim como podemos ter escalas para os horários de expediente, podemos tê-las para horários de almoço. Isso permite que ninguém passe fome e ainda assim seja possível sempre ter alguém atendendo durante todo o tempo em que o escritório ou loja estiver aberto, e evita aglomerações e filas nos restaurantes, fast foods e lanchonetes,

E, mais! Em vez de ficar com o salão de beleza, o estúdio de costura, ou outro espaço de serviços fechado na segunda-feira (alô, empreendedores das microempresas!), eles podem abrir tranquilamente e manter o faturamento equilibrado se for feita uma escala.

Quem trabalha nesta segunda pode folgar na segunda que vem, ou na terça… E isso pode ser organizado para acontecer uma vez por mês, uma vez a cada 15 dias, ou de várias outras formas, observando o que é mais adequado e pertinente tanto para o negócio quanto para as necessidades dos clientes.

Quem trabalha nesta segunda pode folgar na segunda que vem, ou na terça…

Não estar restrito a uma ordem que parece mais de manejo de gado, é bom. Não viver sob regras rígidas é bom. Flexibilidade é bom!

Férias

Bem, quanto às férias então?…

Isso! Escala também funciona para férias! A gente sabe há séculos que não dá pra todo mundo tirar férias junto. Mas todos querem aproveitar o verão. OK. Então, vamos organizar a escala de acordo com o número de dias de férias, feriados de final de ano, verão, inverno, férias escolares (preste atenção que aí vai entrar um próximo ponto importante que vou abordar no próximo artigo-capítulo!) e outros.

E fazer as coisas serem justas, claro. Porque se forem sempre os mesmos que ganham os “melhores dias”, isso vai impactar no clima organizacional. E aposto que você já viu algo assim acontecer na empresa que trabalha ou trabalhou, ou em que alguém conhecido trabalha!

Porque se forem sempre os mesmos que ganham os “melhores dias”, isso vai impactar no clima organizacional.

Veja que, até aqui, falei quase que exclusivamente no que se refere a empresas de médio e grande porte. Mas tudo isso tem um impacto formidável nas micro e pequenas empresas também, tanto em termos de trabalho em casa quanto, até, de contratação de empregados de maneira mais adequada ao porte e às necessidades dos negócios dos pequenos empreendedores.

Mas isso também é papo para outro artigo. Por enquanto, ficamos aqui a respeito de trabalho, e vamos falar de estudo já no próximo artigo!

[1] Fonte: Exame, 25/03/2020, disponível em https://exame.abril.com.br/carreira/mesmo-apos-a-crise-coronavirus-vai-mudar-dinamicas-de-trabalho/, acessado em 05/05/2020.
Ana Manssour
Relações Públicas pela PUC-RS, com aperfeiçoamento em Comunicação Empresarial pela ESPM-RS e mestre em Administração com ênfase em Organizações pela UFRGS. Conta com mais de 35 anos de carreira profissional em vários segmentos de mercado. Foi professora em cursos de graduação e pós-graduação no Rio Grande do Sul, São Paulo e Minas Gerais. Fundou e foi sócia por sete anos do portal feminino Plena Mulher. Casada, mãe de quatro meninas e avó de uma menina e um menino, atualmente redireciona toda a experiência profissional, acadêmica, familiar e pessoal para apoiar o empoderamento feminino por meio do Verbo Mulher, negócio de impacto iniciado em 2015 e criado para reunir, integrar, educar e apoiar as mulheres executivas, empresárias e empreendedoras que buscam realização pessoal e profissional.

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