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Por que lutar pelo empoderamento feminino?

Ultimamente, tenho lido e ouvido muitas mulheres condenando veementemente a luta pelo empoderamento feminino, a luta das mulheres pela igualdade de direitos e, sinceramente, ainda não me trouxeram nenhum argumento contundente de que elas têm razão.

Recentemente vivi uma experiência que me deixou bastante reflexiva. Diante das altas temperaturas é natural que a gente escolha roupas mais leves para sair de casa. Certo dia, minha escolha foi uma saia acima do joelho e uma blusa de um ombro só, nada fora do contexto do trabalho. No entanto, para a minha surpresa ouvi frases estranhas, do tipo “Hoje está parecendo piriguete”, “Quem você é para acreditar que pode usar uma roupa assim na sua idade?”. As duas ditas por uma mulher.

Claro que todo mundo gosta de receber elogios, até mesmo “olhares” de galanteio, vamos dizer assim. Alguns podem me rebater dizendo: “Mas você não deveria ligar para os comentários alheios.” “Cantada não é crime.”

Cantada realmente não é crime e se for bem feita ajuda a elevar a autoestima. Mas estou me referindo aqui a comentários carregados de preconceitos e isso incomoda, sim. Incomoda porque é desrespeitoso, as pessoas erram a mão, perdem a noção e o bom senso e isso não se pode admitir.

Após essa experiência fui pesquisar um pouco mais o assunto que, graças a minha aproximação com a Ana Manssour, idealizadora do Verbo Mulher, passou a fazer parte do meu cotidiano. Penso que as mulheres deveriam ter sempre esse assunto permeando suas vidas.

Historicamente falando, o chamado movimento feminista não é algo novo. De forma organizada, ele surgiu no século XIX quando as mulheres decidiram se unir para que pudessem ter direitos jurídicos iguais aos homens. Já no início do século XX surgem as sufragistas, lutando pelo direito ao voto. Pois é, graças às sufragistas, hoje podemos votar, escolher aqueles que irão nos representar.

A questão da vestimenta feminina, por exemplo, foi pauta do movimento. As mulheres eram obrigadas a usar aqueles espartilhos apertadíssimos, que chega a dar arrepio imaginar nos dias mais quentes. Cabelo precisava ser longo, as saias abaixo do joelho, isso quando não eram aqueles vestidões armados. Mas, com o movimento feminista, as mulheres “ousaram” subir a bainha das saias até os joelhos; puderam usar saias justas; os apertadíssimos espartilhos foram substituídos pelo soutien; elas puderam cortar o cabelo mais curto. Se eu passei por essa situação em pleno século XXI, imagina como foram guerreiras essas que ousaram no início do século XX?

Quem assistiu a série Downton Abbey acompanhou que as mulheres não tinham muitos dos direitos que temos hoje. Virea e mexe, uma das mulheres da família Crawley desafiava os padrões, fosse cortando o cabelo, namorando o motorista, usando calça, lutando por uma carreira profissional. As serviçais também ousavam na busca por direitos iguais, como quando Daisy Mason, uma das serviçais da família, foi incentivada a estudar e buscar seus sonhos.

Estou lendo o livro Mulheres, Raça e Classe, da Ângela Davis, em que ela mostra como a luta das sufragistas estava intimamente ligada à questão do fim da escravidão e os direitos iguais dos negros. Mas, infelizmente, por não ser interesse de alguns que eles se unissem e até mesmo por causa do racismo ainda bastante presente na sociedade, atrasaram a luta dos dois lados. Fiz aqui uma análise extremamente superficial e recomendo o livro para quem quer se aprofundar no assunto.

Penso se hoje não estamos vivendo algo parecido. O preconceito impede a união feminina na luta por seus direitos atrasando a chegada de resultados mais contundentes.

A luta é grande e tem várias vertentes: É preciso lutar contra o feminicídio. Por que um homem se vê no direito de matar por ciúmes, por que não aceita a separação? Quantas mulheres são ameaçadas diariamente quando optam pela separação, sendo julgadas até pela família?

É preciso lutar pela igualdade salarial entre homens e mulheres, pelo aumento da inserção da mulher na política. Não a mulher que assume o cargo e desdenha o movimento feminino, mas aquela que luta ao nosso lado, pelos nossos direitos. Para aquelas que ainda não se convenceram, basta olhar os dados publicados no site Politize:

  • 13 mulheres são assassinadas por dia no Brasil (Fonte: MS/SVS/CGIAE – Sistema de Informações sobre Mortalidade – SIM).
  • A cada cinco minutos uma mulher é agredida no Brasil (Mapa da Violência 2012 – Homicídio de Mulheres).
  • A cada 2 horas uma mulher é vítima de homicídio, 372 por mês. (Instituto Avante Brasil – IAB a partir de dados do DataSUS, do Ministério da Saúde – Mapa da violência 2012)
  • Os homens ganham aproximadamente 30% a mais do que as mulheres com mesmo nível de instrução e idade. (Dados adquiridos através do relatório “Novo século, velhas desigualdades: diferenças salariais de gênero e etnia na América Latina”, escrito pelos economistas do BID Hugo Ñopo, Juan Pablo Atal e Natalia Winder.)

Gostaria muito que aquelas que ainda não se convenceram, ao menos refletissem sobre algumas opiniões que emitem, principalmente nas redes sociais: “Toda feminista é mal amada.” (não é bem isso que falam, mas não cabem aqui palavras de baixo calão.), ou então que a mulher feminista é mulher-macho, entre outros absurdos extremamente preconceituosos e descabidos e que não podem ser aceitos, nem por brincadeira.

Enquanto mulheres, precisamos nos unir, participando mais da vida política, por exemplo, lutando por leis que nos beneficiem, sim; discutindo o assunto em casa, principalmente com as crianças. Não é um movimento de mulheres contra homens, até mesmo por isso o movimento feminista precisa do apoio da ala masculina: é um movimento por direitos iguais, não apenas pelo direito de usar a roupa que bem entender ou o direito de salários iguais, mas o direito à vida, o direito de terminar um relacionamento sem correr o risco de perder a vida. São muitos os preconceitos que precisam ser superados e só unidas é que vamos ter ainda mais força.

Referências:

Adriana Franco
Jornalista formada pela Universidade Metodista, pós-graduanda em Projetos Sociais e Políticas Públicas pelo SENAC. Assessora de Imprensa e Produtora de Conteúdo

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