TRABALHO, o primeiro dos 9 pontos de construção do Novo Normal
4 de maio de 2020
Show all

ENSINO, ponto fundamental na construção do Novo Normal

Como falei no artigo anterior, Trabalho, o primeiro dos 9 pontos de construção do novo normal, as escolas, ao lado dos locais de trabalho, foram as primeiras a serem fechadas para evitar que alunos e professores sofressem contágio e fossem vetores de transmissão do novo corona vírus.

Desde então, pais que ainda estavam se deslocando para o trabalho precisaram realizar negociações imediatas com as empresas para ficarem em home office e atender os filhos menores de idade, já que deixar com avós, por serem do grupo de risco, não era uma boa alternativa. E escolas, diretores, coordenadores e professores começaram um processo de migração de emergência de aulas e atividades para o meio on line.

Entretanto, o que parecia ser “a” solução, mostrou-se uma dificuldade a mais e mais um fator de diferenciação entre escolas privadas e públicas, alunos com maiores e menores condições socioeconômicas, pais e mães com maiores e menores habilidades bem como conhecimento e didática para ajudar os filhos, e tempo disponível para apoia-los nas aulas virtuais, considerando que muitos estão trabalhando a partir de casa acumulando com as atividades domésticas.

Entretanto, o que parecia ser “a” solução, mostrou-se uma dificuldade a mais e mais um fator de diferenciação…

E começou-se a ler e ouvir pais desesperados porque passaram a entender que os filhos vão “perder o ano”. Isso sem falar dos alunos de graduação que vão perder o semestre, não vão poder se formar agora ou no final do ano, não conseguem dar continuidade aos trabalhos de conclusão de curso por dificuldade de acesso gratuitos a livros das bibliotecas universitárias, ente outras situações.

EAD e Envolvimento familiar

Sim, a possibilidade de Ensino à Distância existe e vem sendo utilizada há alguns anos. Entretanto, em grande parte das vezes, é de maneira combinada com aulas presenciais, ou como alternativa mais barata, nem sempre bem estruturada, aos cursos presenciais que se tornaram caros ao longo dos anos e inviabilizaram o acesso à graduação superior para muitos jovens e adultos.

Há várias questões que podem ser analisadas neste quesito, como a necessidade ou não de contato mais próximo entre professores e alunos para estabelecer uma relação mais afetiva, que vai além do conteúdo. Com ex-professora de graduação e pós-graduação, sei bem a diferença que faz quando entendemos as características, necessidades e realidades dos alunos de uma turma, ou de alguns alunos em especial. E o quanto atende-las da melhor maneira possível pode ser a grande diferença entre o interesse, vontade e dedicação ao aprendizado e a desistência total ou emocional.

De qualquer maneira, o EAD é uma ferramenta valiosa nos dias atuais, e que quanto melhor estruturada, em termos de conteúdo, didática e tecnologia utilizada, melhores serão os resultados, especialmente se dedicar um tempo de atenção exclusiva a cada indivíduo. E isso funciona bastante bem com jovens e adultos. Mas, e as crianças?

(…) o EAD é uma ferramenta valiosa nos dias atuais, (…) E isso funciona bastante bem com jovens e adultos. Mas, e as crianças?

As crianças estão em crescimento e desenvolvimento não só de conteúdo intelectual, mas também de relacionamentos, de aprendizado sobre as relações sociais, amizades, hierarquia, respeito, solidariedade, compartilhamento. Quem de nós não tem lembranças de grandes amizades da infância ou mesmo de desafetos daquela época? E dos professores que nos marcaram, para o bem e para o mal?

Sob esse ponto de vista, frequentar uma escola física é muito importante para todos os seres humanos, e a educação integral o seu maior valor. E justamente por isso é preciso ter em mente que “perder o ano”, em termos de conteúdo programático, não é um drama, porque esse conteúdo pode ser recuperado ao longo do tempo. E “ano letivo”, como vamos ver em seguida, é um conceito que pode e deve ser revisto para construirmos o novo e melhor normal.

Conteúdo e objetivos

Quando falo em conteúdo, me refiro à parte intelectual, da linguagem às ciências das diferentes áreas. E isso, de maneira geral, está estabelecido e já faz parte dos programas das escolas, com algumas diferenciações. Existe, ou deveria existir, um encadeamento de temas que vão num sentido crescente de acordo com os conhecimentos prévios (ou requisitos) e das faixas etárias dos alunos.

Algumas disciplinas opcionais são possíveis, e especialmente indicadas aquelas que dão um bom embasamento para a vida cotidiana e adulta. Como por exemplo, de negócios e empreendedorismo, de sustentabilidade e diversidade, de relacionamentos interpessoais e solidariedade, indo além do foco exclusivo em vestibular, profissão e carreira voltados para empregos, como tem sido visto até agora.

Afinal, o que eu sempre quis para as minhas quatro filhas foi vê-las se tornarem pessoas integrais e íntegras, com valores morais e éticos bem desenvolvidos (a base, sim, é dada em casa) e preparadas para enfrentarem a vida adulta de frente.

Acredito que todos temos consciência de que não somos eternos – nem queremos ser. E que não estaremos aqui para proteger os filhos das vicissitudes, guerras e pandemias da vida. Portanto, prever que saber trabalhar é mais importante do que ter emprego, e que saber viver em sociedade é mais importante do que ser “mais bem sucedido que os outros” é uma responsabilidade nossa.

Acredito que todos temos consciência de que não somos eternos – nem queremos ser. E que não estaremos aqui para proteger os filhos das vicissitudes, guerras e pandemias da vida.

Por isso a importância da convivência na escola – que não exclui, é claro, que sejam alternadas com aulas e atividades propostas e realizadas à distância, até porque é uma forma de estimular o bom uso da tecnologia da informação. E esta, é absolutamente necessária para tudo, do estudo ao trabalho, do lazer à obrigação.

Horas-aula e Ano Letivo

Creio que fica mais fácil juntar esses dois pontos aqui, porque a quantidade de horas-aula impacta diretamente na extensão do ano letivo.

Ao longo dos anos, a quantidade de horas-aula aumentou várias vezes e a extensão do ano letivo, também. Tenho certeza que muitos de nós ainda lembram de termos três meses inteiros – mais umas duas semanas, para quem estava com média garantida – de férias no verão (dezembro, janeiro e fevereiro) e um mês inteiro de férias no inverno (julho). Curiosamente, isso não trouxe como resultado melhorias significativas ou equivalentes na qualidade do ensino-aprendizagem dos alunos.

Então, isso nos leva a pensar que, mais uma vez, há necessidade de se rever conteúdos, metodologias de ensino, e, principalmente quais são os objetivos do ensino formal das nossas crianças, adolescentes e jovens adultos. E quem tem o dever de ensinar o quê. Porque, nem vou me alongar nisso, quem tem que “educar” as novas gerações são seus pais ou tutores. Fica para as escolas o “ensino formal” e a socialização. Ponto.

(…) quem tem que “educar” as novas gerações são seus pais ou tutores. Fica para as escolas o “ensino formal” e a socialização. Ponto.

Quanto ao ano letivo, entendo que é possível que se tenham várias datas de começo de ano de novas turmas para cada período. Já há bastante tempo enfrentamos situações estranhas ocasionadas pela “idade de corte” para colocar as crianças na primeira série. De acordo com o Ministério da Educação, a data limite para as crianças entrarem no ensino infantil e fundamental é 31 de março [1], com 4 ou 6 anos, respectivamente.

Então, as crianças que completam 4 ou 6 anos à meia noite e um minuto do dia 1º de abril só podem ser matriculadas em níveis inferiores, respectivamente creche e ensino infantil. Vamos falar sério que isso chega às raias do ridículo, ainda mais se considerarmos que não é nem aventado o desenvolvimento intelectual ou maturidade que a criança possa ter (para mais ou para menos).

Se pararmos para pensar em ingressos a cada dois meses, por exemplo, não há grandes perdas em termos de idade, se alguém, por alguma razão, não pode ser matriculado na sua data pode ser na seguinte. E, não se assustem! As férias de cada “turma” de diferentes datas de ingresso podem decorrer em diferentes épocas do ano – isso pode ser muito bom, como poderemos ver nos textos sobre CONSUMO, LAZER e ECONOMIA.

Uma ressalva importante é ver que nada disso impede que as escolas ofereçam atividades de reforço, complementares ou suplementares no contraturno das aulas regulares, até mesmo tendo em vista as diferentes necessidades e capacidades dos alunos. E, por consequência, podem os pais também optarem por inscreverem seus filhos nessas atividades na escola.

[1] RESOLUÇÃO Nº 2, DE 9 DE OUTUBRO DE 2018 – http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=98311-rceb002-18&category_slug=outubro-2018-pdf-1&Itemid=30192
Ana Manssour
Relações Públicas pela PUC-RS, com aperfeiçoamento em Comunicação Empresarial pela ESPM-RS e mestre em Administração com ênfase em Organizações pela UFRGS. Conta com mais de 35 anos de carreira profissional em vários segmentos de mercado. Foi professora em cursos de graduação e pós-graduação no Rio Grande do Sul, São Paulo e Minas Gerais. Fundou e foi sócia por sete anos do portal feminino Plena Mulher. Casada, mãe de quatro meninas e avó de uma menina e um menino, atualmente redireciona toda a experiência profissional, acadêmica, familiar e pessoal para apoiar o empoderamento feminino por meio do Verbo Mulher, negócio de impacto iniciado em 2015 e criado para reunir, integrar, educar e apoiar as mulheres executivas, empresárias e empreendedoras que buscam realização pessoal e profissional.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *